No dia 31 de outubro de 1517, na porta da Igreja do Castelo
de Wittenberg, na Alemanha, Lutero afixou as suas 95 teses que acabaram
provocando o grande movimento religioso, conhecido como a Reforma do Século
XVI. Nelas Lutero convidava os interessados a debater a questão das
indulgências (que eram vendidas para a construção da Basílica de S. Pedro, em
troca de perdão de pecados) e os males que esse tráfico religioso podia
acarretar. Era costume na época afixar em lugares públicos temas ou teses para
debate e convidar os interessados para discuti-los. Embora ninguém tivesse
comparecido para o debate, em pouco tempo toda a Alemanha conhecia as teses de
Lutero, que lhe custaram a bula de excomunhão, mas que representaram também o
começo da obra de purificação da Igreja e seu retorno à verdade.
A Reforma restituiu à Igreja a
crença em doutrinas chaves, que se tornaram essenciais para a sua pregação e
para distingui-la dos erros que continuaram e ainda são mantidos pela Igreja
Romana até os nossos dias. É a importância dessas doutrinas, conhecidas por sua
designação latina Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Soli
Deo Gloria, que quero apresentar, ainda que de forma breve, neste estudo.
1.
SOLA SCRIPTURA - "SOMENTE A ESCRITURA", OU A AUTORIDADE E SUFICIÊNCIA
DAS ESCRITURAS.
Para os reformadores, somente a Escritura Sagrada tem a palavra final em matéria de fé e prática. A Confissão de Fé de Westminster, que adotamos, afirma: Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, ... todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática (I, 2,4,8,10 CFW).
Tanto a autoridade única como também a
suficiência das Escrituras têm sido doutrinas preciosas para as igrejas
reformadas. Só a Escritura e toda a Escritura! Não precisamos de outra fonte
para saber o que devemos crer e como devemos agir. É preciso que voltemos ao
princípio da Sola Scriptura, se queremos ser realmente reformados em nossas
convicções e práticas.
2.
SOLUS CHRISTUS - "SOMENTE CRISTO", OU A SUFICIÊNCIA E EXCLUSIVIDADE
DE CRISTO.
O Catolicismo Romano afastou-se do
Evangelho e instituiu o culto a Maria, já em 431, o culto às imagens, em 787, e
a canonização dos santos, em 933. Instituiu também a figura do sacerdote como
vigário de Cristo, a quem devem ser confessados os pecados e a quem
supostamente foi conferido poder para perdoá-los, mediante a prescrição de
penitências.
A Reforma trouxe à Igreja o
Evangelho simples dos apóstolos, centrado na suficiência e exclusividade da
obra de Cristo para a salvação. A velha confissão de Paulo foi de novo a
confissão dos reformadores: "Porque decidi nada saber entre vós, senão a
Jesus Cristo e este crucificado" (1Co 2:2)
3. SOLA GRATIA -
"SOMENTE A GRAÇA", OU A ÚNICA CAUSA EFICIENTE DA SALVAÇÃO
A Bíblia ensina que o homem é totalmente
incapaz de fazer qualquer coisa para a sua salvação. Está espiritualmente morto
em delitos e pecados. Um morto nada pode fazer sem que antes seja vivificado.
Paulo ensina como se operou a nossa salvação: "... pela graça sois
salvos" (Ef 2:1,5). Foi "pela graça", diz Paulo, que fomos
vivificados, estando nós mortos. A salvação é, portanto, exclusivamente ato da
livre e soberana graça de Deus.
Foi a Reforma que trouxe à luz a verdade
da Sola Gratia, ensinada nas Escrituras. Onde a total inabilidade do homem for
negada e os pretensos méritos humanos forem cridos, não haverá verdade bíblica.
A salvação não é, em nenhum sentido, obra humana. Não são os métodos ou
técnicas humanas que operam a salvação, mas tão somente a graça regeneradora do
Espírito. A fé não pode ser produzida por uma natureza decaída e morta(Tt
3:3-5)
4.
SOLA FIDE - "SOMENTE A FÉ", OU A EXCLUSIVIDADE DA FÉ COMO MEIO DE
JUSTIFICAÇÃO.
Paulo argumenta: E, se é pela graça, já
não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça (Rm 11:6). A graça
exclui totalmente as obras. A única coisa que lhe cabe fazer é aceitar o dom da
salvação, pela fé, quando esta lhe é concedida. Fé na obra suficiente de
Cristo, que lhe é imputada gratuitamente.
A ênfase na doutrina da justificação
somente pela fé é tão oportuna e necessária agora quanto nos dias de Lutero, e
não só porque o catolicismo não mudou, mas porque o protestantismo mudou. São
poucos os evangélicos hoje que ainda dão ênfase ao aspecto objetivo da
justificação unicamente pela fé.
5.
SOLI DEO GLORIA - "A DEUS SOMENTE, A GLÓRIA", OU A EXCLUSIVIDADE DO
SERVIÇO E DA ADORAÇÃO A DEUS.
Coroando
estes temas que a Reforma nos legou está o da "glória somente a
Deus". Dar glória somente a Deus significa que ninguém, nem homens nem
anjos, deve ocupar o lugar que pertence a Ele, no mundo e em nossa vida, porque
somente Ele é o Senhor. É o que exige o 1º mandamento em Ex 20:1-2. A história
do homem é uma história de quebra desse mandamento. Depois do pecado, o homem
tem constituído deuses para si em lugar do Deus verdadeiro.
James M. Boice disse: “Meu argumento é que o motivo pelo qual a igreja evangélica atual está tão fraca e o porquê de não experimentarmos renovação, embora falemos sobre nossa necessidade de renovação, é que a glória de Deus foi, em grande, parte esquecida pela igreja. Nunca vamos experimentar a renovação na doutrina, no culto e na vida enquanto não pudermos dizer honestamente, só a Deus seja a glória"
A Reforma nos legou esses
grandes temas, que são doutrinas preciosas da Bíblia. Cabe a nós hoje, seus
legatários, dizer se somos ou não dignos herdeiros dessa herança e
continuadores dessa obra. O que cremos e o que pregamos representa nossa
resposta ao mundo em que realmente cremos.
Pr. Eli Vieira
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