segunda-feira, 27 de março de 2023

UMA VISÃO DO CRESCIMENTO DA IGREJA


 

O texto de 2 Reis 6.1-7 ensina alguns princípios importantes sobre o crescimento da obra de Deus. O contexto está ligado com a escola de profetas nos dias do profeta Eliseu, discípulo de Elias. O professor era um homem comprometido com a Palavra e com a oração. Nesse tempo, os milagres de Deus eram operados, confirmando a palavra dos profetas. Em virtude desse exemplo, havia muitos jovens sendo vocacionados para o profetismo em Israel. Quando os professores andam com Deus, eles motivam outros a também conhecerem a intimidade de Deus. O seminário estava pequeno para o crescimento da demanda vocacional. Uma espécie de reavivamento estava acontecendo na casa de profetas. Não era tempo de estagnar o ímpeto vocacional nem dispensar novos estudantes. Era tempo de alargar as fronteiras, ampliar a tenda, criar mais vagas e ver o crescimento da obra. O texto em tela enseja-nos alguns princípios sobre o crescimento da igreja. Vejamos:

Em primeiro lugar, é preciso ter uma visão de empreendedorismo e crescimento. Em vez de dispensar os novos candidatos que estavam sendo despertados para a vocação profética, os seminaristas resolveram ampliar as dependências do seminário. Eles foram empreendedores e resolveram trabalhar para ampliar a casa de profetas. O crescimento da igreja começa com a visão de líderes que desejam vê-la crescer e que trabalham para isso. Precisamos de líderes que estão gratos pelo que já alcançaram, mas não conformados com o que já obtiveram. A igreja tem o tamanho da visão de seus líderes. Se Deus amou o mundo, nossa visão não pode ser menor do que o mundo. Se Jesus morreu para comprar com o seu sangue os que procedem de todos os povos, línguas e nações, precisamos ampliar nossa visão de crescimento. Não podemos nos acomodar. Precisamos subir nos ombros dos gigantes e ter a visão do farol alto. Precisamos empreender e alargar as estacas da nossa tenda. A igreja pode crescer, deve crescer e precisa crescer.

Em segundo lugar, precisamos nos unir com pessoas que têm a mesma visão de crescimento. Os alunos da escola de profetas compartilharam a visão com Eliseu e o convidaram a participar com eles do projeto de expansão. Precisamos nos unir com pessoas que amam ao Senhor e desejam ver o crescimento da obra. Precisamos de parcerias inspiradoras. Ninguém realiza grandes projetos sozinho. Somos um corpo, uma equipe. Precisamos da cooperação de todos. O projeto de crescimento da igreja não é adição, mas multiplicação. Se todos colocarem a mão no arado; se todos se envolverem; se todos estivem motivados e trabalhando com o mesmo propósito e com a mesma motivação, a igreja avançará e alargará sua tenda.

Em terceiro lugar, precisamos de ferramentas adequadas para fazer a obra. Os estudantes empunharam machados afiados. Cada um tinha um machado nas mãos. Eles foram cortar árvores para ampliar a casa de profetas e precisavam de ferramentas adequadas. O machado tem o poder do corte. O machado é o instrumento. O machado é um símbolo do poder do Espírito. Sem essa ferramenta não conseguimos atingir nosso objetivo de expandir a casa de Deus. Não fazemos a obra de Deus com a força do braço da carne. Não é por força nem por poder, mas pelo Espírito de Deus que realizamos a obra de Deus.

Em quarto lugar, precisamos compreender que enquanto trabalhamos na obra acidentes de percurso podem acontecer. Enquanto um moço de Eliseu derrubava um tronco o machado caiu na água e foi parar no fundo do rio Jordão. O jovem profeta se desesperou e disse: “Ai! Meu Senhor! Porque era emprestado”. No trabalho também enfrentamos perdas, dores, baixas e acidentes. Nem sempre lidamos com situações favoráveis. Perdas, prejuízos, doenças, fragilidades nos assaltam, mesmo quando estamos na lida. As crises podem nos pegar de surpresa, porém, não deixam nosso Deus em apuros. Elas são pedagógicas. Nossas crises são oportunidades para Deus nos demonstrar sua providência milagrosa.

Em quinto lugar, precisamos recorrer ao extraordinário de Deus quando chegamos ao fim dos nossos recursos. O moço recorreu a Eliseu e Eliseu cortou um pau e lançou-o no rio e fez flutuar o machado. Então, o moço estendeu a mão e o apanhou. Enquanto fazemos a obra, Deus opera suas maravilhas. Quando chegamos ao fim dos nossos recursos Deus opera o extraordinário. A igreja nunca pode perder a expectativa do extraordinário de Deus no ordinário da vida.
É tempo de avançarmos! É tempo de alargar nossas fronteiras! É tempo de crescimento!


Rev. Hernandes Dias Lopes

TÃO GRANDE AMOR

 


“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

O texto em destaque é considerado a miniatura da Bíblia. Encerra a essência do evangelho. Cada palavra tem uma tonelada de graça. Expressa o grande amor de Deus ao mundo. Quatro verdades devem ser aqui destacadas:

Em primeiro lugar, o maior doador. “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira…”. Deus é o maior doador. Ele é o único Deus vivo e verdadeiro. Ele é autoexistente, infinito, imenso, eterno, imutável, onisciente, onipresente, onipotente, transcendente, soberano. Os povos têm seus deuses, forjados pela imaginação humana e cinzelados pelos artífices. Porém, esses deuses, por mais antigos ou populares, não passam de ídolos. Há um só Deus verdadeiro. Ele é Espírito. Ele é luz. Ele é amor. Não há maior privilégio do que ser amado por Deus. Não há maior dádiva do que ser o alvo desse amor incomensurável e inefável. As palavras humanas não podem descrever toda a profundidade desse amor. A poesia é pobre demais para enaltecer os atributos desse amor. Como expressa o poeta: “Ainda que todos os mares fossem tinta; ainda que todas as nuvens fossem papel; ainda que todas as árvores fossem caneta; e, ainda que todos os homens fossem escritores, nem mesmo assim, se poderia descrever o grande amor de Deus.

Em segundo lugar, a maior dádiva. “… que deu o seu Filho unigênito…”. Deus deu o seu melhor, Deus deu tudo, Deus deu a si mesmo, Deus seu o seu Filho unigênito. Deu-o não para vir ao mundo e ser aplaudido pelos homens; deu-o não para ser alvo dos efusivos encômios da humanidade. Deu-o não para vir ao mundo e pisar os tapetes aveludados do luxo. Deu-o não para receber os favores da terra. Ao contrário, deu-o como oferta pelo nosso pecado. Deu-o para ser o nosso representante, substituto e fiador. Deu-o para morrer pelos nossos pecados. Jesus, o Filho unigênito de Deus, desceu da glória, esvaziou-se a si mesmo, assumiu a forma de servo, humilhou-se até à morte e morte de cruz. Sendo ele, santo, santo, santo foi feito pecado por nós. Sendo ele bendito eternamente, se fez maldição para tornar-nos benditos. Sendo ele imaculado, carregou sobre o seu corpo, no madeiro, os nossos pecados. Sendo ele o autor da vida, morreu na cruz para nos salvar. Oh, sublime amor! Oh, dádiva bendita!

Em terceiro lugar, o maior necessitado. “… porque Deus amou ao mundo…”. O amor de Deus por nós é abundante, imerecido e comprovado. O que é admirável não é que Deus amou ao mundo, por ser ele tão grande, mas por ser tão pecador. A causa do amor de Deus por nós não está em nós, mas nele mesmo. Ele nos amou quando éramos fracos, ímpios, pecadores e inimigos. Ele nos deu vida e nos fez assentar com Cristo nas regiões celestes quando éramos escravos da carne, do mundo e do diabo. Ele prova seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo Jesus morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Se Deus não nos tivesse amado, estaríamos arruinados. Se ele não nos tivesse dado seu Filho, estaríamos perdidos.

Em quarto lugar, o maior propósito. “… para que todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna”. O propósito de Deus em amar-nos é nossa salvação. O propósito é claro. Há pela frente duas possibilidades: perdição eterna ou vida eterna. Aquele que crê em Jesus tem a vida eterna, já passou da morte para vida. Aquele, porém, que se mantém rebelde contra Jesus não verá a vida e não terá como escapar da ira vindoura. O céu é um estado e um lugar de bem-aventurança eterna para todos aqueles que creem no Senhor Jesus. O inferno é um estado e um lugar de tormento eterno preparado para o diabo e seus anjos. Se agora mesmo você crer em Jesus, você não perece, mas tem a vida eterna!

Rev. Hernandes Dias Lopes

sábado, 11 de março de 2023

UMA NUVEM SE LEVANTA DO MAR

 


“Elias, porém, subiu ao cimo do Carmelo, e, encurvado para a terra, meteu o rosto entre os joelhos, e disse ao seu moço: Sobe e olha para o lado do mar. Ele subiu, olhou e disse: Não há nada. Então, lhe disse Elias: Volta. E assim por sete vezes. À sétima vez disse: Eis que se levanta do mar uma nuvem pequena como a palma da mão do homem” (1Rs 18.42-44).

O profeta Elias orava no monte Carmelo, clamando aos céus as chuvas torrenciais para dessedentar a terra e restaurar a sorte da nação depois de três anos e meio de seca severa. Na sétima vez que clamou ao Senhor, seu moço viu uma nuvem, do tamanho da palma de uma mão, que subia do mar. Elias, entendeu que era a promessa de uma chuva copiosa que se aproximava.

O Brasil vive tempos de sequidão e os Elias de Deus estão orando por uma poderosa visitação de Deus nesse tempo. A crise está instalada em todos os setores da sociedade: do palácio ao parlamento, das cortes às escolas, das igrejas às famílias. Cresce a impiedade. Agiganta-se a iniquidade. A injustiça desfila nas ruas. A imoralidade desfralda suas bandeiras. A desonestidade está nas ruas. A violência assusta a nação. Nesse deserto de virtudes e nesse campo minado de integridade, sentimo-nos acuados por aqueles que deveriam nos defender. Fracassa o braço da carne. Entra em colapso o sistema garantidor da ordem e da justiça. Aqueles que violam as leis e auferem gordas vantagens de esquemas de corrupção recebem as benesses dos magistrados e desfilam garbosos como beneméritos da sociedade. Aqueles que deveriam legislar para o bem do povo, deixam-se vender por dinheiro e corrompem seu mandato. Aqueles que deveriam governar para o bem do povo, blasonam discursos populistas para promover aquilo que traz mais desespero para a nação.

Nesse ambiente cinzento de tantas sinuosidades morais, a nação geme sob látego da desesperança. Não há a quem recorrer. Prevalece as nulidades enquanto a virtude escasseia. As igrejas cristãs, que deveriam manter-se focadas no seu chamado de anunciar o evangelho, não raro, imiscuem-se também em bandeiras alheias à sua vocação e perdem sua vitalidade. É nessa hora de ameaça à nação, que à semelhança de Elias, devemos nós subir à presença do Senhor e nos humilharmos até ao pó, clamando pelas chuvas do avivamento. A saída para o Brasil não está na plataforma política nem apenas numa política de recuperação econômica. Só uma intervenção soberana de Deus pode erguer nosso país do caos político, moral e espiritual. Precisamos de um avivamento espiritual que desperte a igreja e impacte o mundo. Precisamos das chuvas restauradoras do alto para regar os corações sedentos e aflitos.

Elias confrontou o rei Acabe, o povo e os profetas de Baal. Elias não deu outros nomes a Baal, mas removeu Baal do caminho. Entre as chuvas de Deus e a terra seca havia um obstáculo que precisava ser removido. Baal precisava ser eliminado. Depois de mostrar, com sinais eloquentes, que só o Senhor é Deus, Elias subiu para o cume do monte Carmelo para clamar pelas torrentes do céu. Elias orou com humildade e perseverança. Orou até as chuvas descerem. Elias falou do poder de Deus e o experimentou. De igual modo, a maior necessidade da igreja é preparar o caminho do Senhor e clamar aos céus por um grande avivamento. É tempo de buscarmos ao Senhor até que ele venha. É tempo de orarmos até que uma nuvem se forme no horizonte. É tempo da igreja perseverar em oração até que do alto sejamos revestidos de poder. É tempo de vermos uma igreja restaurada pelo Espírito Santo e uma nação alcançada pelo evangelho da graça. Que venham as chuvas da graça sobre nós!

Rev. Hernandes Dias Lopes

O PRIMEIRO CULTO PROTESTANTE NO BRASIL

 


Alderi Souza de Matos

Cabe aos presbiterianos a honra de terem realizado o primeiro culto evangélico na história do Brasil e das Américas. Esse evento singular ocorreu há 466 anos em uma pequena colônia fundada pelos franceses na baía de Guanabara.

1. A França Antártica

Após o descobrimento do Brasil, Portugal demorou a interessar-se pela ocupação e colonização dos novos domínios. Com isso, a colônia atraiu a atenção de outras nações europeias, especialmente a França. Após a experiência mal-sucedida das capitanias hereditárias e as constantes incursões estrangeiras, a coroa portuguesa resolveu tomar providências concretas. Em 1549 enviou o primeiro Governador-Geral do Brasil, Tomé de Souza, que se instalou na nova cidade de Salvador. Todavia, o controle da imensa costa era ainda muito limitado. Foi nesse contexto que o militar e aventureiro Nicolas Durand de Villegaignon teve a ideia de fundar uma colônia em uma região bem conhecida dos franceses: a baía de Guanabara.

Villegaignon aproximou-se do vice-almirante Gaspard de Coligny, um dos principais conselheiros do reino francês, que nutria fortes simpatias pela Reforma. Com isso, conseguiu o apoio do rei Henrique II (1547-1559), que lhe forneceu dois navios aparelhados e recursos para a viagem. A expedição chegou à Guanabara no dia 10 de novembro de 1555, sendo bem recebida pelos índios tupinambás, acostumados com a presença de franceses na região. O grupo instalou-se na pequena ilha de Serigipe (hoje ao lado do Aeroporto Santos Dumont), mais tarde denominada ilha de Villegaignon, onde foi construído o Forte Coligny.

2. A vinda dos reformados

Diante de várias dificuldades surgidas, Villegaignon escreveu à Igreja Reformada de Genebra solicitando o envio de pastores e colonos para implantarem a fé reformada entre os franceses e evangelizarem os indígenas. Coligny convidou para liderar o grupo um ex-vizinho seu, Filipe de Corguilleray, conhecido como Senhor Du Pont. Por sua vez, João Calvino e seus colegas alegremente escolheram para acompanhar os colonos os pastores Pierre Richier (50 anos) e Guillaume Chartier (30 anos).

Os huguenotes que os acompanharam foram Pierre Bourdon, Matthieu Verneil, Jean du Bourdel, André Lafon, Nicolas Denis, Jean Gardien, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau, Jacques Rousseau e o sapateiro Jean de Léry, o cronista da viagem, que mais tarde iria publicar o famoso livro Viagem à Terra do Brasil (1578). Eram ao todo 14 pessoas. O grupo deixou Genebra em 16 de setembro de 1556. Após visitarem o almirante Coligny, seguiram para Paris, onde outros se uniram à comitiva. Alguns pensam que entre eles estava Jacques Le Balleur. No dia 19 de novembro embarcaram para o Brasil no porto de Honfleur, na Normandia.

A frota de três navios, comandada por Bois Le Conte, sobrinho de Villegaignon, levava cerca de 290 pessoas, inclusive algumas mulheres. Como de costume, a viagem foi muito penosa. A certa altura, diante da situação em que se achavam, os reformados recitaram o Salmo 107 (ver os vv. 23-30). No dia 7 de março de 1557, os viajantes finalmente entraram no “braço de mar” chamado Guanabara pelos selvagens e Rio de Janeiro pelos portugueses.

3. O primeiro culto

O desembarque no forte Coligny deu-se no dia 10 de março, uma quarta-feira. O vice-almirante recebeu o grupo afetuosamente e demonstrou alegria porque vinham estabelecer uma igreja reformada. Logo em seguida, reunidos todos em uma pequena sala no centro da ilha, foi realizado um culto de ação de graças, o primeiro culto protestante ocorrido no Novo Mundo (Américas).

O ministro Richier orou invocando a Deus. Em seguida foi cantado em uníssono, segundo o costume de Genebra, o Salmo 5: “Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras”. Esse hino constava do Saltério Huguenote, com metrificação de Clement Marot e melodia de Louis Bourgeois, e até hoje se mantém nos hinários franceses. Bourgeois foi diretor de música da Igreja de Genebra de 1545 a 1557 e um dos grandes mestres da música francesa no século 16. A versão mais conhecida em português (“À minha voz, ó Deus, atende”) tem música de Claude Goudimel (†1572) e metrificação do Rev. Manoel da Silveira Porto Filho.

Em seguida, o pastor Richier pregou um sermão com base no Salmo 27:4: “Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo”. Após o culto, os huguenotes tiveram sua primeira refeição brasileira: farinha de mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho. Dormiram em redes, à maneira indígena. A Santa Ceia segundo o rito reformado foi celebrada pela primeira vez no domingo 21 de março de 1557.

4. Eventos posteriores

Infelizmente, o vice-almirante acabou entrando em conflito com os huguenotes sobre questões doutrinárias e os expulsou da colônia. Em 4 de janeiro de 1558, eles partiram para a França a bordo de um velho navio. O comandante avisou que a viagem iria ser difícil e não haveria alimento para todos. Diante disso, cinco huguenotes se ofereceram para voltar à terra. Inicialmente Villegaignon os recebeu de modo cordial, mas logo os acusou de serem traidores e espiões. Formulou um questionário sobre pontos doutrinários e lhes deu doze horas para responderem por escrito. O resultado foi a bela Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense.

O almirante declarou heréticos vários artigos e decidiu pela morte dos reformados. No dia 9 de fevereiro de 1558, Jean du Bourdel, Matthieu Verneil e Pierre Bourdon foram estrangulados e lançados ao mar. André Lafon foi poupado devido às suas vacilações religiosas e ao fato de ser o único alfaiate da colônia. Jacques Le Balleur fugiu e foi para São Vicente. Levado preso para a Bahia, ficou encarcerado por oito anos, sendo então conduzido ao Rio de Janeiro, onde foi enforcado. Ele e seus companheiros ficaram conhecidos como os mártires calvinistas do Brasil.

O GETSÊMANI DA VIDA

 


            O Jardim do Getsêmani foi o lugar da agonia de Jesus. Ali havia uma prensa de azeite, onde as azeitonas eram amassadas, para se extrair o óleo que servia de combustível para as lamparinas. Foi nesse jardim, no sopé do monte das Oliveiras, que Jesus se entristeceu, orou, chorou e sangrou. Foi ali que ele travou mais titânica batalha da humanidade. Foi ali que ele, em lágrimas, rogou ao Pai para passar dele o cálice. Foi ali que ele se prostrou com o rosto em terra e, de forma perseverante, orou e se sujeitou à vontade do Pai. Foi ali que ele foi consolado por um anjo e fortalecido pelo Pai, para caminhar vitoriosamente para a cruz.

            No Getsêmani, Jesus enfrentou severa angústia. Essa angústia teve três níveis. Vejamos:

            Em primeiro lugar, Jesus admite sua angústia para si mesmo (Mt 26.37). “E, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se”. Qual foi a causa da tristeza e da angústia de Jesus? Angustiou-se porque sabia que seria preso, julgado e condenado? Angustiou-se porque sabia que seria esbordoado e cuspido pelos membros do sinédrio judaico? Angustiou-se porque sabia que seus discípulos o abandonariam? Angustiou-se porque sabia que Judas o trairia, Pedro o negaria e Pilatos o sentenciaria a pena de morte? Angustiou-se porque sabia que seria pregado na cruz como um malfeitor? A resposta é mil vezes não! Angustiou-se porque sabia que sendo o Amado do Pai, seria abandonado por ele na cruz. Angustiou-se porque sendo santo, santo, santo seria feito pecado por nós. Angustiou-se porque sendo bendito eternamente, seria feito maldição, para que fôssemos benditos eternamente.

            Em segundo lugar, Jesus admite sua angústia para seus discípulos (Mt 27.38). “Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo”. Muitas coisas, Jesus falou às multidões. Outras, falou apenas para seus discípulos. Quando foi tomado de tristeza e angústia, revelou isso apenas aos seus três discípulos mais chegados, Pedro, Tiago e João. Mas, quando chorou e suou sangue, fez isso sozinho. Aqui Jesus revela sua perfeita humanidade. Mesmo sabendo que ao se ferir o pastor, as ovelhas ficariam dispersas. Mesmo tendo pleno conhecimento de que Judas o trairia e Pedro o negaria, Jesus ordena a seus discípulos a ficarem com ele e a vigiarem com ele. Aquilo que era uma experiência íntima e pessoal, agora, é uma realidade compartilhada com seus discípulos mais próximos. Infelizmente, os discípulos não passaram no teste. Enquanto Jesus travava a mais renhida batalha em favor da nossa alma, seus discípulos se agarraram no sono. Em vez de vigiarem, dormiram; em vez de ficarem com Jesus, fugiram acovardados.

            Em terceiro lugar, Jesus admite sua angústia para o Pai (Mt 27.39). “Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice. Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”. Jesus já havia admitido sua tristeza para si e para seus discípulos. Agora, admite-a diante do Pai. A batalha mais pesada foi travada no interior do Getsêmani, quando sozinho, Jesus prostrou-se com o rosto em terra, clamando ao Pai para passar dele o cálice. Três vezes Jesus orou, pedindo ao Pai a mesma coisa. Ele ofereceu, numa luta de sangrento suor, forte clamor e lágrimas àquele que poderia livrá-lo da morte. No Getsêmani, porém, Jesus sujeitou-se à vontade do Pai, e sorveu cada gota daquele cálice amargo da ira de Deus que deveria cair sobre nós. Ele tomou o nosso lugar como nosso representante e fiador. Ele levou sobre si as nossas iniquidades. Ele morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Agora, pela sua morte temos vida; pelo seu sangue temos redenção, pelo seu sacrifício temos plena salvação.

Rev. Hernandes Dias Lopes

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

VIVER EM OBEDIÊNCIA A DEUS


 Obediência por amor ao Senhor a chave de toda bênção

Texto: Dt 10:12 – 11:32

As palavras: “Agora, pois, ó Israel” (Dt 10:12) constituem a transição a que Moisés chega ao encerrar essa parte de seu discurso, uma seção em que ele lembra o povo dos motivos para obedecer ao Senhor seu Deus.

 Não se tratava de um assunto novo, porém, ainda assim, era uma questão importante, e Moisés queria que todos compreendessem a mensagem e que não a esquecessem: Viver em  OBEDIÊNCIA POR AMOR AO SENHOR ERA A CHAVE DE TODA BÊNÇÃO.

O Deus que age, ensina ao seu povo que a obediência por amor ao Senhor é a chave para uma vida  abençoada, Por isso Moisés falou aos filhos de Israel:

1-OBEDEÇAM OS MANDAMENTOS DO SENHOR (w. 12, 13) – A sequência destes cinco verbos é significativa: temer, andar, amar, servir e guardar. O temor do Senhor é a reverência que lhe devemos pelo simples fato de ele ser Senhor. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a vida de fé é comparada a uma caminhada (Ef 4:1, 17; 5:2, 8, 15).

O elemento central desse conjunto de cinco verbos é o amor, sendo que nessa parte de seu discurso Moisés emprega seis vezes termos relacionados a ele (Dt 10:12, 15, 19; 11:1, 13, 22). É possível temer e amar ao Senhor ao mesmo tempo? Sim, pois a reverência que demonstramos para com ele é uma forma amorosa de respeito que vem do coração. A palavra “coração” aparece cinco vezes nessa parte do discurso de Moisés (Dt 10:12, 16; 11:13, 16, 18), de modo que ele deixou claro que o Senhor quer mais do que obediência externa. Deseja que façamos a vontade dele de coração (Ef 6:6), uma obediência motivada pelo amor que alegra nosso Pai celestial.

Portanto, se amarmos a Deus, não será um fardo nem uma batalha lhe servir e guardar seus mandamentos. Esses cinco elementos são como partes de um motor, que devem ficar juntas e trabalhar em conjunto.

2-OBEDEÇAM PELO CARÁTER DE DEUS (VV. 14-22)-O equilíbrio entre o temor do Senhor e o amor ao Senhor é resultado de uma compreensão cada vez maior dos atributos de Deus. Enquanto estavam vivendo no Egito, os israelitas viram o poder do Criador quando ele mandou fogo, granizo, escuridão, rãs, piolhos e até morte, provando que estava no controle de todas as coisas. Quando o Criador do Universo é seu Pai, por que se preocupar?

A criação não revela claramente o amor e a graça de Deus, mas vemos esses atributos nas alianças que ele fez com seu povo (Dt 10:15, 16). Deus escolheu Israel porque o amava, e, por causa desse amor, entrou em aliança com ele, a fim de ser seu Deus e de abençoá-lo. Os cristãos do Novo Testamento sabem que fazem parte de uma aliança por causa da presença do Espírito Santo dentro deles (Ef 1:13 e 4:30; Rm 8:9, 16).

O Deus que adoramos e servimos também é santo e justo. Por ser santo, tudo o que Deus faz é justo, pois para Deus é impossível pecar. Sua conduta é imparcial, e ele não pode ser subornado por nossas promessas ou boas obras. Deus cuidou dos israelitas quando eram estrangeiros no Egito e esperava que eles cuidassem de outros estrangeiros quando Israel estivesse assentado em sua própria terra.

3-OBEDEÇAM PELO CUIDADO DE DEUS (10:21 – 11:7)-As palavras “o que fez” ou semelhantes são usadas seis vezes nesse parágrafo, pois a ênfase é sobre os feitos poderosos de Deus em favor de seu povo, Israel, “a grandeza do Senhor , a sua poderosa mão e o seu braço estendido” (Dt 11:2). O que Deus fez por Israel?

Quando os judeus eram escravos no Egito, Deus cuidou deles e multiplicou-os grandemente. Jacó e sua família fizeram sua jornada para o Egito, a fim de se juntarem a José (Gn 46), e setenta pessoas transformaram-se numa nação poderosa de cerca de dois milhões. Moisés também lembrou a nova geração de que Deus havia cuidado deles durante o tempo em que vagaram pelo deserto, mas mencionou apenas um acontecimento específico: o julgamento de Deus sobre Datã e Abirão (Dt 11:5, 6; Nm 16; Jz 11).

Era importante que essa nova geração aprendesse a respeitar os líderes de Deus e a obedecer aos mandamentos do Senhor com relação ao sacerdócio. Ainda hoje, indivíduos arrogantes que desejam promover-se e ser “importantes” na igreja devem ter cuidado com a disciplina e o juízo de Deus (At 5:1-11; 1 Co 3:9-23; Hb 13:17; 2 Jo 9-12).

4- OBEDEÇAM PELAS PROMESSAS DA ALIANÇA (W. 8-25)- A palavra-chave desta parte do discurso é “terra” e aparece pelo menos doze vezes, referindo-se à terra de Canaã que Deus havia prometido a Abraão e a seus descendentes quando entrou em aliança com ele (Gn 13:14-1 7; 15:7-21; 1 7:8; 28:13; 5:12; Êx 3:8). A terra de Israel serviria de palco em que se desenrolaria o grande drama da redenção.

Se Israel desejava possuir a terra, permanecer nela e desfrutá-la, deveria obedecer aos mandamentos de Deus, pois toda a terra de Israel pertence ao Senhor (Lv 25:2, 23, 38).  O mesmo princípio aplica-se aos cristãos de hoje: em Cristo temos “toda sorte de bênção espiritual” (Ef 1:3), mas não podemos nos apropriar delas, nem desfrutá-las a menos que creiamos nas promessas de Deus e que obedeçamos a seus mandamentos.

De que maneira nos apropriamos das bênçãos de Deus? Ao dar um passo de fé (Dt 11:24, 25). Foi isso o que Deus ordenou a Abraão (Gn 13:17), bem como a Josué (Js 1:3). Você não “toma posse da terra” ao estudar o mapa e sonhar com a conquista. Você toma posse ao dar um passo de fé, crer na Palavra de Deus e depender da fidelidade do Senhor. J. Hudson Taylor disse: “Como fazer para que a fé se fortaleça? Não lutando por ela, mas, sim, descansando sobre aquele que é fiel”.

Pr. Eli Vieira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

O ANTICRISTO, O HOMEM DA INIQUIDADE

 


“Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição” (2Ts 2.3).

 

            A Bíblia, a palavra de Deus, reiteradamente fala sobre o Anticristo, o homem da iniquidade. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento descrevem esse arqui-inimigo de Cristo e da igreja. Em face de uma agenda global que vai ganhando espaço no Brasil e no mundo, erguendo a bandeira do ateísmo, do relativismo moral, do marxismo cultural e da desconstrução dos valores cristãos, trago aqui algumas reflexões.

            Em primeiro lugar, o Anticristo será o homem sem lei (2Ts 2.3). A palavra grega para iniquidade, no texto em tela, é anomos, “sem lei”. O mundo é regido por essa cosmovisão e por essa agenda que não suporta princípios e valores. Os pilares da família são atacados. Os fundamentos da sociedade são destruídos. Não se trata mais de concessão ao erro nem mesmo de inversão de valores. Vemos, hoje, o controle do erro. Não se suporta mais a verdade. Não se tolera a luz. Vivemos numa sociedade pelo avesso, onde a virtude é escarnecida e as práticas mais vergonhosas são aplaudidas. Nessa sociedade hedonista, os absolutos morais são banidos. A lei é torcida, golpeada e manipulada para atender às demandas desse viés que não suporta Deus nem sua lei. O antinomismo governa. A iniquidade campeia. A degradação moral impera.

            Em segundo lugar, o Anticristo trará em sua esteira a apostasia (2Ts 2.3). Aqueles que um dia professaram a fé cristã, vê-la-ão como radical demais e virarão suas costas para ela. Sacudirão de sobre si o jugo de Cristo. Deixarão as fileiras do cristianismo para abraçar uma fé inclusivista. Estarão mais interessados em agradar ao mundo do que a Cristo. Desejarão mais os aplausos do mundo do que a aprovação de Deus. Subscreverão uma teologia progressista e liberal, que despreza a inerrância das Escrituras. Abraçarão uma graça barata, cunhada de “super graça”, que justifica o pecado e não o pecador. A apostasia é uma realidade gritante. O nome de Deus tem sido banido dos parlamentos, dos palácios, dos tribunais, das escolas e até de algumas igrejas.

            Em terceiro lugar, o Anticristo agirá na força de Satanás (2Ts 2.9). O Anticristo vem como opositor e substituto do verdadeiro Cristo. Representará um simulacro da encarnação do Verbo eterno de Deus, pois será uma espécie de encarnação do próprio Diabo. Seu aparecimento será segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, com todo engano de injustiça aos que perecem. O Dragão, o Diabo, lhe dará o seu poder, o seu trono e grande autoridade. Sua boca proferirá arrogâncias e blasfêmias. Receberá autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação. Adorá-lo-ão todos os que habitam sobre a terra, exceto aqueles cujos nomes estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro.

            Em quarto lugar, o Anticristo perseguirá furiosamente o povo de Deus (Ap 13.7). O Anticristo vai pelejar contra os santos, os filhos de Deus, impondo-lhes sofrimento atroz. Esse será o tempo da manifestação do iníquo e da grande tribulação. Sua perseguição irá às últimas consequências, pois ele matará a todos aqueles que se recusarem a adorá-lo. Mesmo o Anticristo recebendo uma adoração universal, aqueles que têm selo de Deus e seus nomes escritos no Livro da Vida, jamais se dobrarão a ele. Ao contrário, mesmo morrendo, vencerão o Diabo e o Anticristo, pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho.

            Em quinto lugar, o Anticristo será destruído pela manifestação da vinda de Cristo (2Ts 2.8). Cristo virá em sua majestade e glória e o Anticristo será quebrado sem esforço de mão humana. Cristo o matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda. O Anticristo será lançado no lago do fogo juntamente com o Falso Profeta. O Diabo e a morte também serão lançados no lago do fogo. Enfim, todos aqueles cujos nomes não estão escritos no Livro do Vida serão lançados no lago do fogo. A igreja vitoriosa e sobranceira, porém, reinará com Cristo pelos séculos eternos. O povo de Deus não precisa temer. Somos mais que vencedores em Cristo Jesus!

 Rev. Hernandes Dias Lopes 

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